Iniciativa do Sicoob Sarom leva educação financeira e cooperativismo a mais de 120 escolas públicas, formando lideranças, fomentando o empreendedorismo e o cooperativismo no interior mineiro
Outubro – A cerca de 320 quilômetros de Belo Horizonte e com pouco mais de sete mil habitantes, São Roque de Minas é a porta de entrada para o Parque Nacional da Serra da Canastra. Um município encantador que tem no turismo uma de suas principais atividades econômicas.
Quem visita a cidade e a região não imagina que está próximo a uma das maiores experiências de educação empreendedora ligada ao cooperativismo de Minas Gerais, talvez do Brasil.
Desde 2013, 120 escolas municipais e estaduais de 17 municípios participam de ações de empreendedorismo e cooperativismo que constam em suas matrizes curriculares. As ações já alcançaram mais de 60 mil crianças e jovens que, desde cedo, aprendem sobre educação financeira, gestão de negócios, investimentos, cooperação e coletividade.
Como parte dos resultados das ações educacionais, o Sicoob Sarom, cooperativa financeira que está à frente do projeto, contabiliza 16 cooperativas mirins atuando em diferentes segmentos. “Temos cooperativas mirins voltadas para a produção e comercialização de alimentos, para o entretenimento e para a assessoria de marketing e comunicação”, exemplifica Ighor Oliveira, Gerente de Educação e Desenvolvimento do Cooperativismo do Sicoob Sarom.
A experiência dessas 16 cooperativas mirins tem sido tão impactante para a comunidade local que cerca de cinco mil jovens e crianças já se tornaram cooperados regulares do Sicoob Sarom. Mais do que isso, juntos, esses jovens mantêm R$ 15 milhões em ativos financeiros dentro da instituição, divididos em R$ 11 milhões em depósitos e R$ 4 milhões em aplicações de poupança.
O projeto começou por um motivo inusitado, quase dramático. Entre os anos de 1998 e 1999, houve um corte na educação municipal deixando de ser ofertada a educação infantil, os pais buscaram parceria na cooperativa de crédito para formarem uma cooperativa educacional.
“A cooperativa educacional atende todos os níveis de ensino da educação básica, seguindo as diretrizes do Ministério da Educação, mas que tem em sua grade curricular o ensino de cooperativismo, empreendedorismo e educação financeira”, explica Maria José de Faria Leite, diretora e presidente da Cooperativa Educacional Sarom.
Foi nessa cooperativa educacional que começou a gestação das cooperativas mirins. Em parceria com o Sebrae, os professores foram capacitados dentro do programa Jovens Empreendedores Primeiros Passos. Em missão técnica conheceram as experiências das cooperativas escolares de Sunchales, na Argentina, antes mesmo da metodologia que o Instituto Sicoob tem atualmente.
As experiências vivenciadas na cooperativa educacional serviram para a criação e o desenvolvimento do Movimento CoopEducação, programa educacional aplicado nas escolas públicas da área de atuação do Sicoob Sarom.
Ighor conta que o objetivo inicial era trabalhar com os alunos os conceitos e os princípios do cooperativismo. Os meninos, entretanto, queriam saber como aplicar aquilo na prática. “Então, dentro dos princípios, começamos a trabalhar os modelos de negócio, tendo o empreendedorismo e a educação financeira como eixos condutores. A constituição da primeira cooperativa mirim foi uma forma de tangibilizar aquele conhecimento”, explica.
ABRAKADABRA Circus
Foram necessários anos de trabalho contínuo até que a primeira cooperativa mirim fosse constituída. Em 2009, um grupo de jovens criou a Abrakadabra Circus, voltada para a realização de eventos artísticos.
“Embora São Roque de Minas seja uma cidade turística, não temos tantas atrações culturais. Então, essa cooperativa foi pensada para atender a uma demanda da comunidade, que participa, compra os ingressos e movimenta toda uma cadeia em torno das apresentações”, explica Maria José.
A movimentação gerada pela criação dessa primeira cooperativa mirim levou à constituição de outra cooperativa mirim, a CoopChef, que trabalha com alimentos, que passaram a ser vendidos nos eventos culturais da Abrakadabra Circus. E uma terceira cooperativa mirim surgiu para dar suporte em comunicação e marketing: a CoopTech.
Educação de acordo com a idade
Antes de tudo, as cooperativas mirins fazem parte de um projeto educacional que conta com o apoio de professores capacitados e a orientação de profissionais do Sicoob Sarom. A capacitação do corpo docente é uma das primeiras etapas do programa educacional.
Aline Analia Santos é pedagoga, atuou na rede pública e atualmente é Analista de Educação e Desenvolvimento do Cooperativismo. Ela lembra que “quando o projeto iniciou nas escolas municipais e estaduais de São Roque de Minas, a gente, enquanto professor, ficou bem assustado. Falar de cooperativismo com crianças nos deu medo”.
Segundo ela, isso foi sendo vencido com os treinamentos que atrelavam a educação financeira, o empreendedorismo e o cooperativismo a questões lúdicas. “Na educação infantil, na Semana de Educação Financeira, trazíamos questões como ‘pé de meia’, ‘dinheiro não dá em árvore’, a questão do sonho e as cores cooperativas”.
Aline lembra que quando foi diretora em uma das escolas beneficiadas pelo programa, a partir do 5º ano do ensino fundamental, já era possível realizar eleições entre os alunos, mas, para evitar atritos, a chapa vencedora assumia o conselho de administração e a que ficava em segundo lugar, o conselho fiscal.
“A partir do 6º ano, com os professores orientadores, os alunos constituem as cooperativas e focam na pesquisa de preço e no produto que vão vender”, completa. “É um trabalho pedagógico pautado no lúdico e nas vivências que vão crescendo de acordo com a maturidade das crianças”, explica.
Impacto na comunidade
Quando o Sicoob Sarom foi criado, em 1991, mal existia mão de obra qualificada na cidade. Um cenário bastante diferente do atual, muito em razão das cooperativas mirins.
Hoje, 40% dos atuais funcionários do Sicoob Sarom (do Centro Administrativo, da agência de São Roque de Minas, das agências e dos pontos de atendimento) são pessoas que participaram das cooperativas mirins na infância e juventude.
É o caso de Sabrina Melo Ferreira, que descobriu sua vocação profissional na Cooperativa Mirim Cantinho dos Sabores, na escola Estadual General Carneiro, e hoje atua como supervisora de comunicação e marketing do Sicoob Sarom.
“Eu entrei como diretora de Marketing quando estava no oitavo ano e permaneci no projeto até o terceiro ano do ensino médio. Foi ali, ainda dentro da escola, que comecei a enxergar o que realmente queria para a minha vida. Eu me identifiquei com aquela área e descobri a profissão que queria seguir. Então, o projeto tem esse poder de nos ajudar a descobrir caminhos, desenvolver habilidades e enxergar novas possibilidades para o nosso futuro”.
Reconhecimento institucional e engajamento comunitário
A consistência do modelo tem atraído atenção nacional. Durante uma visita técnica realizada no último ano, representantes do Banco Central do Brasil destacaram a profundidade do conhecimento dos estudantes, afirmando que dirigentes do setor deveriam aprender sobre as diretrizes e a prática cooperativista com os próprios alunos do programa.
Além da formação individual, o projeto movimenta a economia e a vida social das cidades. As feiras empreendedoras promovidas pelas escolas chegam a mobilizar cerca de 1.000 pessoas por evento em São Roque de Minas, o que representa aproximadamente 15% da população local engajada nas atividades dos estudantes.










